domingo, setembro 19, 2004

escuro lamento da noite onde se escuta o uivar do vento



na noite tétrica
vi sombras

vazias

caladas

fechadas

chuva ácida, num miudinho chuvisco

solidão oprimida
de tanto resgatada,

momentos eternos de adiamentos
em sonhos livres e desnudados

linhas de um rosto
entrelaçadas
na brisa de um desejo,

um nunca
presente,

o bater da cabeça
de raiva
nas palavras injustas,

a indiferença
que corre em veias grossas,

vi
desprezo
indiferença injustiçada

dizer não
à fúria de estar

por querer ser o prazer saciado


onda
com palavras abres a porta à noite e transformas-te numa sombra lenta

entropecida nos segredos da voz do mar




bebo o silêncio
saboreio o vento,

sacio a fome com a saudade
respiro o mel da fruta

a ausência é uma forma de vida,
baloiço em palavras

em gestos e vozes
com o mar me perfumo

de flores construo um mundo
onde combato o terror e o medo.

atravesso a noite cinzenta,
como um barco sem rumo

exausta sucumbo lentamente
em imagens desfocadas

entro dentro dos sonhos
onde o amor se revela
em movimentos belos e luminosos

perco-me no sono, perto de um coração
que não consegue tocar-me.

extingo-me nas memórias do tempo
ao longo da costa verde e espessa,
tocada por águas translúcidas

é tarde,
diluí-me no sulco da maré


onda

quinta-feira, setembro 09, 2004

um lugar que pinto na imaginação
imagem

atravessei caminhos na vida
numa obscuridade total

o frio foi meu companheiro
além das sombras e solidão

o rosto não o reconhecia
a imagem foi apagada pelo tempo

algumas traziam consigo a dor

tento lembrar-me dos risos
das árvores verdejantes
do cheiro das flores do campo
dos risos de felicidade,

desperta em mim a alegria,
a saudade é dura

vejo rostos sem lhes saber o nome
rostos desconhecidos

sigo o caminho como se fosse uma ordem
quero voltar atrás
como se alguém me chamasse

olho de quando em vez
apresso o passo na noite

desvio o olhar
nada do que procuro me transforma
ou me traz de volta o que procuro

encosto-me, fecho os olhos
e cansada reconheço uma voz

respondo-te e regresso.


onda

quarta-feira, setembro 08, 2004

lua transparente onde me prendo sem condições



isolo a noite
da lua transparente

desafio a penumbra
caminho suspensa na noite
largando o esquecimento
na chuva, intensa e fria

passo a passo
desvendo os gestos
entorpecidos pelo desgaste,
entro nos sonhos invisíveis da voz do mar

num vento ofegante
sem regresso
chega até mim o ruído das ondas
numa obsessão sonâmbula

gemidos desprendidos,
nos fluxos de uma hipótese de amor
onde me anuncio
em palavras sem cor


onda

segunda-feira, setembro 06, 2004

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello nasceu em 06.09.1904, no Porto



O Bailador de Fandango

Sua canção fora a Gota.
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe "o fandangueiro".
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava...
Não era nome de cravo
Nem era nome de rosa;
Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?
(Nem sei que nome lhe dar...)

Tinha seus braços erguidos
Não sei que ignotos sentidos...
- Jeitos de asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
Que se esfolhava, esfolhava...


Domingos Enes Pereira,
Do lugar de Montedor,
(O bailador de Fandango
Era aquele bailador!)
Vinham moças de Areosa
Para com ele bailar...
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos,
Como chamas traiçoeiras,
Entrelaçavam-se e a dança
Cobria o chão de fogueiras...


E as sombras formavam sebe...
O movimento as florira...
O sonho, a noite, o desejo...
Ai! belezas da mentira!


E as sombras entrelaçavam-se...
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia..


Pedro Homem de Melo
Pecado, Líricas Portuguesas

em predra exausta no encontro da noite



fui pedra
em manhã de frio.


estrela
nos caminhos da infância


verão quente
em arbustos de fogo


frescura
num instante inocente


fui obra
na inteligência humana


lâmpada
duma paixão adormecida


infinito
em certas horas


teoria
de palavras ardidas


fui sonho
de uma loucura com sol



onda



domingo, setembro 05, 2004

arrasto as palavas que fazem eco na alma



desapareço por entre o fumo ....
a névoa que me cega
a onda que me arrasta
o mar salgado
com manchas de sangue verde
um cheiro a maresia
num vento que bate leve
arrastando a corrente
levando as tristezas da vida
os dias mal passados
amenizemos a palavra amor
de momentos inquietos
mas duma lucidez irreversível
entre imagens reflectidas
de um adeus sempre adiado
com palavras enlouquecidas
gritos loucos e roucos
sombras tremidas e frias
percorrem a casa vazia
num rumor longínquo
que atravessa vales rios e colinas
num sopro suave da noite
onde a madrugada se anuncia
num cansaço de memórias

onda - um improviso com alguém

volto a fundir-me inclinada em cada dia que amanhece



4

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

Daniel Faria
Do inesgotável
Dos Líquidos

sexta-feira, setembro 03, 2004

acenava ao vento com palavras que se soltavam dos dedos



Agarrei o Mundo entre os dedos da mão...
Gritei-lhe bem alto a dor da desilusão!


Pintei-o como se fosse um arco-íris...
Tirei-lhe a guerra, a fome, as amarguras da vida!


Gritei-lhe o desespero do frio
da dor, da destruição e revolta!


Tentei ensinar-lhe a usar
o verbo amar e pensar...


Mergulhei-o no abismo
Entre passos incertos.


Em pedaços de gente
Pedi-lhe o momento...


E por um instante o mundo parou


onda

domingo, agosto 29, 2004

o cheiro a maresia que me enche a alma



A onda

Era uma onda que crescera para lá do meio do mar
e mais se alçava em corpulência das ondas que tragava
pelo caminho. Era uma onda ávida.
Com ela rolavam búzios alucinados, estilhaços de
conchas, madeiros, plâncton, algas, o último alento dos
afogados... Era uma onda violenta.
A exaltação que trazia dos confins do horizonte nem
lhe dera para se interrogar sobre qual o desígnio do seu
destino. Era uma onda embriagada de vida.
Desfraldada em cachão, cavalgava para terra. A rojar-se
sobre os primeiros bancos de areia, esboçou enfim a
pergunta:
- Porquê?
Mas já não teve tempo de responder.


António Torrado
in Cinco sentidos e outros 1997

a força da noite envolve mistérios



Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, agosto 28, 2004

gestos e palavras a fluir pela vida



Fixei imagens numa lua artificial
escondi a tristeza no corpo em segredo

senti um olhar ferido partindo na escuridão da noite
num sentimento de procura
na penumbra de um desejo

fiquei ali presa naquele mundo de mistérios,
mergulhada em insónias e sonhos obscuros

enxuguei as lágrimas,
ignorei a melancolia da vida
guardei uma imagem
a imagem do teu rosto

guardei os desejos,
as promessas viciadas de palavras quentes
os sonhos

guardei a vontade das noites passadas junto ao mar
o desgaste de um amor que escureceu como a noite

então anoiteceu e num vago olhar
o vento levou um nome,
o teu e nada mais restou

onda

quinta-feira, agosto 26, 2004

Perdesse para lá do tempo o caminho que pisamos



na poeira dos sonhos
longe do mundo

sem mexer
num desfilar de imagens

os corpos perdem-se
e descobrem outros rostos

loucuras que caminham em medos
em lixos mágicos de memória

onde a vida deu mil voltas
sem se deixar contornar

fogem os corpos fluidos
em direcções opostas
separando-se ao amanhecer.

onda

sábado, agosto 14, 2004

palavras escritas à solta

um soltar de palavras no irc deu isto que achei interessante registar, num tempo que passava à solta



@Nao_Suporto> Eu e os meus segundos...
@Nao_Suporto> perco-me nestes segundos que acabam por ter conotação de horas e na realidade até são.
@onda_verde> minutos mutiplicados
@onda_verde> em segundos dividos
@onda_verde> onde as horas fazem o dia
@Nao_Suporto> e os dias sabem a eternidade
@onda_verde> que se estende na vida
@Nao_Suporto> no ser...
@Nao_Suporto> na essência...
@onda_verde> do tempo
@onda_verde> alastrado pela sombra
@onda_verde> contaminada
@onda_verde> onde é soberano o silêncio
@Nao_Suporto> vejo som sem som
@Nao_Suporto> seres sem ser...
@Nao_Suporto> palavras sem letras
@onda_verde> brancas e vazias
@onda_verde> fixadas na pintura
@onda_verde> do rumor
@onda_verde> demolidas da origem
@Nao_Suporto> parasitas da essência
@onda_verde> incoerentes na razão
@onda_verde> calcinadas
@onda_verde> pela sede de viver

domingo, agosto 08, 2004

O Esconderijo do Homem Triste
Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste.
Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens.
Tinham-me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás
a imobilidade que desejas.

Mas eu não sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens
que queria. Gastei as parcas forças que tinha neste trabalho,
até que um dia me perdi junto ao mar.

Resolvi construir, ali mesmo, uma casa.

Tencionava não sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar-me,
viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas mãos.
Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos.
Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de túmulo.

Assim não aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente
em prisão. E talvez tenha sido isso que me pôs, assim, triste para sempre.
Custava-me a crer que aquilo que eu próprio construíra acabasse de me atraiçoar.

Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa.
Não sei se ainda existe... o que sei é que a meio daquela fuga desesperada
ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha
imobilidade.

É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo.

Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar.
Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele.
A máquina disparou sem cessar.

Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse
que nunca mais o voltaria a fazer.

Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador,
eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos,
porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes
- e todo o meu corpo estava mole.

Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi
uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear,
a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim.

Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então,
a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo,
brilhou. Em seguida deixei-me entorpecer na temperatura tépida,
voluptuosa, do fixador.

Tinha encontrado o esconderijo.

E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de não ter deixado de ser
um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado, e de já não precisar
de fugir ou desejar seja o que for.

Mas o pior momento do dia é aquele em que nos separamos. Não consigo dormir.
Fico noite fora com a minha solidão - e quem esteve a ver-me parte
com o susto de continuar a existir.

Nenhum de nós é capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite cai,
de certeza, mais escura para quem parte.

Eu sou apenas a imagem do que fui. Não sinto nada.

Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me muito tempo.

Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos.

De repente, a mulher inclinou a cabeça, sobressaltou-se e disse:

- Zé, perdi o vidro do relógio.

O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela argumentou:

- A culpa foi tua. Eu não queria vir aqui.

O homem, muito sério, respondeu-lhe.

- Francamente, Fátima, não te toquei no pulso. Não mexi no tempo. Nunca mexo no tempo...

Outras vezes, quando não está ninguém olhar para mim, ponho-me a cismar:

A luz é o meu túmulo.

Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o pólen à flor.
Com esses gestos quis construir um espaço para o silêncio. Uma morada
onde fosse possível ignorar o mundo, ou esquecê-lo.

De vez em quando, aceito ainda o mistério das palavras que me cercam
e não coincidem, em nada, com a realidade. Eu só quis celebrar a vida.
Encontrar o esconderijo onde fosse possível um derradeiro acto de paixão.
O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto
e recusar a aridez da calúnia.

Mas a luz é o meu túmulo.

A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o círculo luminoso
aprisionou-me, e as mãos gesticularam sem sentido. O interior das paisagens
guardou a tua ausência. E numa última visão a madrugada
irrompeu do mar adormecido.

As mãos abriram-se novamente,
quando o dia começou a devorar a nudez do corpo.

Comovido, perdi a voz.

Não podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome
nas paredes da cidade. Tempo perdido. Já não podias ouvir-me nem ler-me.
Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo.

Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz
simula a eternidade dos dias.

Não há emoções, nem palavras ditas em voz alta. Não acontece nada,
nem se ouve respiração alguma.

Quem me visita diz coisas fantásticas a meu respeito. Nunca confirmo
nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque há coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam.

É claro que também há coisas guardadas na minha memória de papel.
Mas essas, já não tenho a certeza de que alguém as tenha dito
ou eu as tenha, de facto, ouvido.

Por vezes ponho-me a sorrir, mas ninguém consegue ver que sorrio,
porque o retrato que me esconde - como eu - está morto e desfocado.

E a luz é o nosso túmulo.


Al Berto

  abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...